Responsáveis falam da dificuldade em alimentar 35 milhões de pobres do mundo
Por Kathryn McConnell
Redactora
Kansas City, Missouri – Os que fornecem ajuda alimentar e os beneficiários enfrentam um “cenário novo e preocupante” que modifica a dinâmica da ajuda, diz Henrietta Fore, chefe da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).
A combinação de custos elevados da energia e dos alimentos, alterações climáticas que afectam a produção e a desvalorização do dólar americano “constituem uma crise diferente das que já enfrentámos antes”, afirma Fore. As crises anteriores foram causadas principalmente por factores geográficos – seca, cheias ou guerra – e afectaram um grupo relativamente homogéneo de pessoas, diz ela.
Fore, que também é directora da ajuda externa norte-americana, falou a 16 de Abril na 10ª Conferência Internacional sobre Ajuda Alimentar em Kansas City, Missouri. A conferência foi patrocinada pela USAID e o Departamento Norte-Americano da Agricultura.
Na conferência, o Secretário Norte-Americano da Agricultura, Ed Schafer, disse que a procura crescente de culturas para a produção de biocombustíveis é uma das razões e não a principal razão dos custos elevados dos alimentos.
Schafer afirmou, “Os custos mais elevados da energia são o principal factor que faz subir os preços dos alimentos”. Segundo ele, as más colheitas nalguns países também contribuem para a crise alimentar, a que alguns chamaram “uma verdadeira tempestade”.
Fore declarou que a USAID actualmente conta com $265 milhões em custos imprevistos da ajuda alimentar, dos quais cerca de $200 milhões são atribuíveis ao preço mais alto dos produtos.
Schafer disse que a 14 de Abril foi autorizado pelo Presidente Bush a recorrer a cerca de $200 milhões do Bill Bill Emerson Humanitarian Trust para a ajuda alimentar de emergência.
MIGRAÇÃO URBANA
Segundo Fore, a mudança da população pobre mundial de zonas rurais para zonas urbanas coloca novos desafios aos que prestam ajuda.
Durante os próximos 30 anos, prevê-se que a população mundial aumente em 2.5 mil milhões de pessoas, dos quais 2 mil milhões nascerão em cidades, disse ela.
Ela firmou que podia haver “um aumento no número de pessoas afectadas por fome extrema” em vilas e cidades. “Se a fome urbana continuar a aumentar, a ameaça mais visível e preocupante será a perturbação em massa e civil, que já estamos a ver”.
Nas últimas semanas ocorreram distúrbios devido ao aumento no preço dos alimentos no Haiti, no Egipto, na África Ocidental e no Bangladesh.
Um dos desafios que as agências humanitárias enfrentam é a identificação e avaliação das necessidades dos pobres urbanos, “família por família e bairro a bairro”, um modelo de avaliação que é “muito diferente do que estamos a fazer nas zonas rurais”, declarou Fore.
Outro desafio é ajudar os novos residentes urbanos a aprender a cultivar alimentos num cenário urbano, como em hortas.
SOLUÇÕES
Embora Fore tenha afirmado que não conta com uma diminuição nos preços dos alimentos “tão cedo”, ofereceu alguma esperança a mais longo prazo. Numa conferência de imprensa Fore disse que parcerias públicas-privadas que desenvolvem a produção dos países e sistemas de acesso ao mercado, dão formação e trocam ideias de pesquisa “resolverão os problemas do futuro”.
Ela explicou que as parcerias ajudam os países em desenvolvimento a aumentar os seus níveis de produção, que têm estado a diminuir pois muitos agricultores deixaram de ter dinheiro suficiente para factores de produção cada vez mais caros – sementes, fertilizantes e combustível. Embora nos anos 70 e 80 as taxas de crescimento da produção fossem em média de 3% por ano, nos últimos anos as taxas baixaram para 1%.
Fore disse que a USAID quer ajudar a melhorar os sistemas de comércio nos países em desenvolvimento e incentiva os governos a apoiarem os empresários. “O instrumento decisivo de combate à fome é um clima favorável aos negócios”.
Ela afirmou que a USAID começou a analisar 15 corredores de transporte para o desenvolvimento em África. Estes ligariam centros de produção a centros de consumo e “podiam reduzir substancialmente o preço dos produtos de primeira necessidade”.
Schafer disse que os investigadores americanos estão a colaborar com os seus homólogos noutros países para desenvolverem uma nova variedade de trigo que resistiria a uma doença devastadora de ferrugem, que afecta as culturas na Ásia, no Médio Oriente e na África Oriental.
As reservas de trigo nos EUA já se encontram ao nível mais baixo em 60 anos. Mas, embora 75% das espécies actuais de trigo sejam vulneráveis a esta doença de ferrugem, a doença ainda não existe na América. Se os esporos viajarem para o hemisfério ocidental nas correntes de ar e se não for descoberta uma variedade de trigo resistente, os alimentos podem diminuir bastante, segundo Schafer. Em 2007, a América ajudou a alimentar 35 milhões de pessoas em mais de 70 países.